A Era dos Cookstars – Por Rafa Tonon

Por Equipe Dedo de Moça

Ilustração: André Rodrigues

A recente capa da TIME internacional estampando uma foto em clima de bromance dos chefs David Chang, Rene Redzepi e Alex Atala diz muito sobre a fase atual da gastronomia no mundo: a de que ela alçou, de uma vez por todas, um posto no rol da cultura pop. Não é de hoje que a gastronomia vive uma fase, digamos, efusiva, mas graças a uma nova geração de chefs midiáticos, pensantes e performáticos, ela chegou a esse patamar de se tornar papo em mesa de bar (gourmet, pois bem), de virar notícia do Jornal Nacional, de ganhar campanhas publicitárias dos mais diversos produtos.

Os grandes chefs hoje em dia não só cozinham. Ou melhor, pouco têm tempo de cozinhar. Eles viajam o mundo para dar palestras, arrebatam seguidores nas redes sociais (muitos com milhares de fãs), distribuem autógrafos por onde passam, criam teorias alimentares, se apresentam para plateias das mais diversas, se tornam bandeiras de políticas governamentais, fazem participações em eventos de bancos, são garotos-propaganda de empresas de inovação, posam sem camisa para revistas femininas… O céu da boca não é mais o limite para essa nova geração de cookstars. A gastronomia ficou pop, e muito disso se deve a eles.

A capa da TIME: a gastronomia de vez no rol da cultura pop

Não por acaso a Time escolheu o trio em questão para sua capa: Atala, Chang e Redzepi são hoje os que mais exemplificam essa nova geração. Seu trabalho vai além das cozinhas: Chang tem uma revista cultuada por foodies, criou um laboratório que trabalha em parceria com a aclamada Universidade de Harvard, dá canja (trocadilho infame, perdoem) em discos de hip-hop. Redzepi organiza um dos mais influentes simpósios do ramo, conclama e reúne em torno de si cozinheiros e produtores, veste a camisa da sustentabilidade, apresenta os produtos nórdicos para o mundo, desenvolve com sua equipe cervejas especiais para a Carlsberg. Atala, por sua vez, criou seu próprio instituto e apoia diversas ações sociais, dá visibilidade a pequenos produtores e à cozinha brasileira e atualmente está na maior turnê editorial já feita por um chef.

A editora da Phaidon Emília Terragni, que edita grandes chefs (como Atala e Redzepi) e com quem conversei na última edição da feira de Frankfurt (o link para a matéria no Paladar está aqui), acredita que essa geração tem apelo midiático por conta de suas ideias inovadoras e por sua capacidade de criar novas teorias culinárias, que vão muito além de receitas. “Essa geração de chefs é muito mais interessante e interessada que as gerações anteriores. São mais engajados, mais ligados em arte, mais envolvidos em questões sociais”, defende. Concordo com ela.

Mas, é preciso dizer, são também mais politicamente corretos, sabem trabalhar melhor suas imagens. Há alguns anos, os grandes chefs eram figuras mais reclusas e anti-sociais, vivendo o (sub)mundo dos restaurantes – regado a farras e bebidas, em muitos casos –, se recolhendo a suas atuações culinárias.  Basta reler algumas páginas do já clássico Cozinha Confidencial, de Anthony Bourdain, para notar como as coisas mudaram muito mais do que uma pitada é capaz de medir. De Marco Pierre White fomos a Jamie Oliver: a gastronomia saiu da cozinha e ganhou os holofotes lá de fora, os programas de TV, os espaços das mesas de centro. E hoje, prova mais que sintomática, até a capa da TIME.

O chef inglês Jamie Oliver, o maior ícone recente do bom-mocismo gastronômico

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